Uma breve história de (in)sustentabilidade

Excelente texto de Mauro Kahn e Pedro Nóbrega apresentando sinteticamente a história da humanidade, das revoluções industriais e do insustentável estilo de vida da sociedade de consumo:


UMA BREVE HISTÒRIA DE (IN)SUSTENTABILIDADE

Por Mauro Kahn e Pedro Nobrega

O ser humano, desde o período paleolítico, caracteriza-se pelo desperdício e consumo deliberado de recursos naturais. Mesmo quando se organizava em pequenos grupos nômades, o homem jamais hesitou em esgotar os recursos de caça e coleta em uma região, poluí-la e abandoná-la em busca de um novo local para se estabelecer e explorar.

No entanto, este impulso de destruição era muito suavizado pela pequena e dispersa população mundial (demorou-se milênios até que se tenham reunido mais de 500 pessoas em uma mesma região, uma vez que não haveria alimento para todos e o conceito de “família” ainda era primitivo). A própria demanda, na realidade, era relativamente muito baixa. A qualidade de vida do homem, neste momento, não exigia que seu ambiente fosse profundamente modificado, e as espécies animais ou vegetais acabavam posteriormente recuperando seu espaço.

A situação começou a se alterar no período neolítico, com o surgimento da agricultura e, conseqüentemente, de grupos sedentários. A partir daí, a criatividade humana foi colocada em prática para superar os obstáculos da demanda, e foram desenvolvidas novas técnicas de exploração, que aos poucos foram tornando cada região uma fonte teoricamente inesgotável de espólios para seus habitantes.

Ainda assim, até o século XIX a poluição causada podia ser absorvida, e prejudicava mais a própria espécie, vítima das numerosas doenças geradas pela falta de saneamento, do que a própria natureza. As manufaturas eram poucas e aproveitadas o máximo possível (roupas eram feitas para durar mais de uma geração, por exemplo, e passavam de mãos em mãos) e a principal fonte de energia ainda era a lenha.

Com a segunda revolução industrial e com a era do petróleo, a situação transformou-se completamente. O carvão e o petróleo elevaram o conceito de poluição a um nível até então desconhecido. A consolidação da classe média foi também a consolidação do mercado consumidor, e a partir daí o lixo gerado foi não só cada vez maior como também cada vez mais difícil de ser reciclado.

Hoje vivemos em uma sociedade voltada inegavelmente para o consumo, na qual o indivíduo supre carências até mesmo afetivas através da compra deste ou daquele objeto e onde dificilmente um produto dura mais do que alguns anos. Quem não é capaz de comprar seu objeto de desejo sente-se frustrado e inferior. As casas também acompanharam o fenômeno: os quartos diminuíram para abrir espaço para o closet, atribuindo uma importância cada vez maior aos produtos em detrimento dos moradores.

É, enfim, o estilo americano de vida: consumir muito e constantemente. No entanto, a verdade é que, para que todos vivessem como os EUA, seriam necessários 4 planetas Terra.

Nunca se produziu tanto lixo. No passado, qualquer pessoa que não quisesse mais uma TV ou uma geladeira poderia vendê-la de segunda mão; hoje muitas vezes não se encontra quem queira recebê-la por doação, sendo difícil até mesmo jogá-la fora (o lixo eletrônico traz em seus componentes metais pesados e outros materiais que demorarão séculos para se decompor). Ninguém quer um micro-computador obsoleto e muito menos um celular.

Celulares “pré-históricos” continuariam a cumprir até hoje sua principal função (enviar e receber telefonemas), no entanto um novo modelo é sempre lançado no mercado, com novos recursos que dificilmente utilizaremos em sua plenitude. O consumidor sente-se satisfeito em saber que dispõe destes recursos e apega-se ao status do produto. Um modelo V3, lançado a menos de cinco anos, já virou sucata.

Mas é claro que nem tudo está perdido. Com os efeitos da mudança climática batendo à porta dos países do Hemisfério Norte, as questões ambientais vêm obtendo uma presença na mídia que compete com os anúncios que estimulam essa febre de consumo. Não queremos de forma alguma dizer com isso que a economia deva ser totalmente reformulada; a obrigação que nossas atuais condições impõem é a de toda a humanidade repensar seus atuais valores e aprender que, assim como no passado, é possível viver sem trocar de celular, computador, eletrodomésticos e até mesmo carros como se troca de roupa. Se o consumo é importante para perpetuar nossa qualidade de vida, nosso planeta certamente é bem mais.

Mauro Kahn – É gerente executivo da pós-graduação em meio ambiente MBE www.mbcursos.coppe.ufrj.br